Esse Blog foi criado para divulgar ações, experiências e idéias interessantes relativas à Agroecologia no estado do RJ.

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Experiência Agroecológica de Dois Produtores Familiares em Assentamento Rural da Baixada Fluminense

Experiência apresentada em forma de painel durante o III Congresso Brasileiro de Agroecologia, em Florianópolis-SC.

Seu Sebastião e sua compostagem de restos de mamona

Seu Sebastião molhando a horta

Seu Erenildo colhendo inhame

Seu Sebastião moendo cana pra fazer melado com a garapa

Feira Cultural da Glória, onde os agricultores vendem seus produtos orgânicos

Seu Erenildo nos mostrando os produtos da barraca

Histórico dos agricultores e da luta pela terra
Sebastião Antônio de Oliveira nasceu no município de Alegre, Espírito Santo, no ano de 1952. Veio para o Rio de Janeiro em 1971. Trabalhava como pedreiro, até que em 1993 soube de um assentamento rural que estava se formando no município de Seropédica. Se instalou no local, ficando acampado 1 ano até a liberação do título da terra.

Erenildo Luiz da Silva nasceu em Presidente Kennedy, Espírito Santo, em XXXX, chegando ao Rio de Janeiro em 1979. Trabalhava como pedreiro e fazendo bicos, até que tomou conhecimento do assentamento a partir de seu cunhado e de seu irmão, que já estavam lá. Então em 1994 ele se instala com sua esposa e consegue um lote.


A luta pela terra não foi fácil. Organizados com a Pastoral da Terra e o MST, sofreram muita pressão por parte dos grileiros daquelas terras, que os atacavam ateando fogo a suas barracas e nos pastos, além de ameaçá-los com armas de fogo. Vários acampados foram feridos a bala e tiveram de ser hospitalizados. Felizmente ninguém morreu.

Finalmente sai a posse da terra, em 1994, pelo INCRA, porém tendo que ser paga em parcelas durante 17 anos. A infraestrutura necessária que deveria vir junto com a terra não veio. Luz, água, saneamento, escola, posto médico, canais de comercialização, nada foi feito, até hoje. Conseguiram apenas o acesso a luz elétrica, porém pagando dos seus próprios bolsos. O posto médico construído no local e o poço instalado na associação de moradores nunca funcionaram.

Caracterização do ambiente

O Mutirão Eldorado, como é chamado o assentamento, está localizado no Município de Seropédica, na Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro. As atividades agrícolas da região sempre foram marcadas pela utilização de práticas incompatíveis com a preservação dos recursos naturais, como fogo, monocultura, erosão e um intenso desmatamento. Após o esgotamento da fertilidade do solo a níveis que impossibilitavam o cultivo agrícola, iniciou-se a pecuária extensiva. No início do assentamento a área era quase toda formada por pastagens degradadas e abandonadas. Hoje, a realidade já é um pouco diferente, pois próximo as casas dos agricultores já se notam algumas árvores. Porém, a quase totalidade dos morros ainda estão desmatados, e práticas antigas como as queimadas e utilização de agrotóxicos ainda são muito freqüentes.


A transição do modo de produção
Seu Erenildo e seu Sebastião mantém uma sociedade há nove anos, trabalhando em conjunto, um ajudando o outro. O lote de um é do outro, pois trabalham, plantam, colhem e comercializam coletivamente, prezando o apoio mútuo. Neste período nunca brigaram, sempre se acertaram.

Quando chegaram ao assentamento só tinha rabo de burro, a terra era dura e seca, com quase nenhuma árvore plantada. Os primeiros plantios foram feitos de forma convencional, com veneno, pois não tinham conhecimento dos orgânicos. Produziam muito quiabo, mandioca e maxixe. Porém com o passar do tempo e com todas as dificuldades vividas pelos agricultores (falta d´água, ausência de assistência técnica, dificuldades com a comercialização, etc.) a produção foi caindo vertiginosamente. Seu Sebastião, desanimado, chegou a ficar alguns anos sem plantar, só plantando árvores em seu lote.

Foi através da atuação do Grupo de Agricultura Ecológica (GAE) e de alguns professores da UFRRJ que os agricultores do Eldorado tiveram um maior contato com a Agroecologia. Através da troca de experiências entre os produtores e estudantes, eles resolveram mudar a forma de cultivar a terra. Essa difícil decisão também foi influenciada pelo fato de os agricultores conhecerem os perigos dos agrotóxicos e os males que causavam. Vários vizinhos já tinham se intoxicado e ido ao hospital por usar os produtos sem proteção. Seu Sebastião vivia doente, de hospital em hospital, vivia internado. Após começar a produzir organicamente, sua saúde frutificou. Passou a se alimentar dos produtos saudáveis que plantava e a tomar todo dia de manhã seu “suco verde”, composto de folhas de todas as espécies de seu terreno batidas no liquidificador. Nunca mais sofreu aqueles males.

Atualmente
Seu modo de produção é totalmente natural, não usam nenhum produto feito em laboratório. O controle do dano é feito com a rota da plantação, se um inseto está atacando a planta, a mudam de lugar no próximo plantio.

As hortaliças são cultivadas no lote de Seu Sebastião, onde existem 3 açudes e 5 nascentes de água. No lote de seu Erenildo está a agrofloresta. A implantação foi difícil, ele não conhecia o sistema e não conseguia imaginar como era possível plantar limão e laranja consorciado com árvores de grande porte. Mas gostou da idéia, e decidiu experimentar. As árvores foram todas plantadas por estacas e sementes, com a ajuda do pessoal do GAE. No início, ficou 3 anos sem colher, só roçando e plantando no roçado. Plantaram abacaxi, mamão e banana entre as árvores, e começaram a colher limão, laranja, feijão, abóbora e aipim. Encontramos na agrofloresta 51 espécies madeireiras, 52 frutíferas e mais de 40 cultivos.

Vendem seus produtos principalmente na feira cultural da Glória, onde são oferecidos aos consumidores apenas produtos orgânicos. São certificados pelo selo ABIO (associação de produtores biológicos).

Incentivam os vizinhos a plantarem orgânicos, mostrando o modo como produzem e os resultados das queimadas e do veneno no solo. Já conseguiram convencer alguns, que hoje em dia fornecem produtos para a feira.

Não voltam pro convencional jamais, pois além de serem altos contaminantes, o produto não tem valor. Se o preço cai na hora da venda, perde-se tudo o que investiu com trator, arado, adubo e defensivo, o que é comum acontecer.

1 Comentário:

japarana disse...

Adorei o relato destes agricultores.
Será que eles se interessariam em cultivar plantas medicinais?

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